O Poder do Jejum

A modernidade tem como uma de suas características, o infeliz hábito de deturpar costumes antigos baseados em conhecimentos milenares. Com o jejum não é diferente. Se outrora sua principal função era espiritual, hoje ele é praticado, na grande maioria das vezes, para fins estéticos diversos: desde o jejum intermitente que promete a perda de gordura preservando o tecido muscular até a anorexia nervosa, doença psiquiátrica que leva o individuo a baixíssimo peso apesar de continuar se vendo gordo.

Dentre essas variações, podemos encontrar dois tipos de jejum que eu particularmente considero saudáveis e complementares: o jejum terapêutico e o jejum religioso. O primeiro se foca no material e têm apresentado regeneração de órgãos, recuperação total do sistema imunológico e até a cura de alguns tipos de câncer, com comprovação científica. O segundo se foca no espiritual como propósito principal, mas tem, como efeito colateral, a melhoria do corpo como um todo também.

Dentre as práticas ascéticas das grandes religiões, o jejum sempre está presente. Não há no mundo nenhuma grande religião que não utilize o jejum como meio de alcançar Deus ou a santidade. Todas as grandes civilizações conheciam o jejum como modo de aumentar a eficiência física e mental, mas também como condição sine qua non para qualquer iniciação espiritual. Além disso, já é sabedoria milenar que o jejum cura doenças.

O que ocorre é que nós temos  dois grandes sistemas funcionando no corpo de modo a demandar uma quantidade grande de energia: o sistema nervoso e o sistema digestório. O sono que dá após uma comilança, não é coincidência: o sistema digestório rouba energia pra dar conta do processo todo, obrigando o resto do corpo, inclusive a mente, a diminuir suas atividades. Dito isso, fica mais claro o porquê do jejum trazer benefícios físicos: uma vez que o sistema digestório está em repouso, os outros sistemas podem trabalhar com maior eficiência, gerando mais clareza das ideias e a regeneração de órgãos e sistemas.

Young woman meditating at sunset . Sitting in lotus position outdoors . Dusk.

Não pretendo aqui descrever todo processo de regeneração, bastando citar apenas o interessante fato de que, com a fome, a sabedoria do corpo realiza a destruição (autólise) de tecidos pouco necessários ou até indesejáveis como pus, tumores, cristais, etc. É nesse sentido que acontece uma limpeza no organismo como um todo. A partir desses materiais autodigeridos, novos tecidos (agora saudáveis) são criados. Com o tubo digestivo esvaziado, todo sangue e linfa são desintoxicados e limpos. As células de gordura são esvaziadas para gerar energia através da gliconeogênese e se enchem de água. Depois de alguns dias sem receber mais gordura, elas se desfazem participando do processo de autólise descrito acima.

Mas certamente que durante o jejum, componentes espirituais atuam concomitantemente. O que ocorre é que o limiar entre o material e o espiritual não é do nosso conhecimento por completo, gerando ceticismo e desconfiança em algumas pessoas. Como vimos mais acima, o corpo pode ser dividido em dois grandes circuitos energéticos: o superior e o inferior. De forma mais didática, imagine que são divididos pelo diafragma. Acima do diafragma, o circuito energético superior trabalha com a vontade e a espiritulidade. Abaixo do diafragma, o circuito energético inferior rege o instinto e o carnal.

Quando o circuito instinto e carnal toma conta do corpo, este vira uma espécie de cavalo selvagem que sai trotando desgovernado rumo ao precipício.  O jejum possibilita, além da cura e regeneração, diminuir drasticamente a atividade do circuito inferior para que a energia se concentre no circuito superior. Dessa forma, a vontade e a espiritualidade passam a governar o corpo como um cavaleiro que monta e doma o cavalo impedindo-o de cair no precipício. O resultado das práticas do jejum é não só o autocontrole per se, mas a expansão da visão de mundo: com as ideias mais claras, catarses são muito comuns.

O indivíduo finalmente abre um canal para que a centelha divina se manifeste através dele. Mas obviamente que isso requer outras práticas ascéticas associadas, como a oração e a meditação. Respeitar o corpo e a mente mantendo a ordem e a limpeza como gratidão ao Ser Supremo que nos deu tais ferramentas tende a nos trazer respostas divinas surpreendentes que podem entrar na categoria dos Milagres.

E assim como os muçulmanos jejuam no período do Ramadam, os budistas jejuam em noite de lua cheia e alguns feriados, os hindus jejuam na noite de lua nova e nos festivais de Shivaratri, Saraswati Puja, Durga Puja (e algumas mulheres no dia de Karva Chauth), sendo que os Hare Krishna possuem o calendário Vaishnava totalmente baseado nas fases lunares para o jejum, assim como os judeus também jejuam no Yom Kippur, no Tisha B’Av (entre outros dias), os cristãos ortodoxos também jejuam em datas especiais.

Cristo disse que para exorcizar uma certa casta de demônios, somente com jejum e oração (Mt 17.21 e Mc 9.29). Indo para o contexto dessas passagens, em Mateus 17 Cristo se transfigura no alto de um monte: “e transfigurou-se diante deles; e o seu rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes se tornaram brancas como a luz” (uma de minhas passagens preferidas). Mas Cristo pede que seus apóstolos Pedro, Tiago e João não contem nada a ninguém até que Ele tenha ressuscitado. Depois, já entre a multidão, Cristo diz que a incredulidade é que não se pode exorcizar, a não ser com jejum e oração.

Já em Marcos 9, a mesma história é narrada dando mais destaque ao exorcismo de um garoto que não conseguia ser exorcizado pelos apóstolos. Cristo diz que tudo é possível àquele que crê e sua fala sobre jejum e oração é citada. Isso nos mostra que o jejum e a oração, juntos, têm o poder de aumentar a fé do indivíduo abrindo o tal canal mencionado mais acima. Essa fé pode ser encarada de várias formas, desde a simples credulidade até experiências místicas bastante interessantes. Alguns monges budistas costumam relatar a geração de calor. Já entre os santos ortodoxos há vários relatos do rosto flamejante como de Cristo na transfiguração. Fato também ocorrido com Moisés no Monte Sinai (Êxodo 34:29-35).

O jejum ortodoxo acontece em vários períodos: Quaresma, o Jejum dos Apóstolos, o Jejum da Ascensão, o Jejum da Natividade, e vários outros dias de jejum. Todas as quartas-feiras e sextas-feiras são consideradas dias de jejum, exceto aqueles que coincidem com as “semanas livres de jejum”. Em geral, a carne, laticínios, óleos e ovos estão proibidos. O peixe é proibido em alguns dias e permitido em outros. Obvimente não se trata do jejum total proposto por outras religiões ou pelo jejum terapêutico, mas tem o mesmo objetivo de abrir-se à Graça de Deus. Eu particularmente, me dou melhor com o jejum terapêutico que adotei como minha prática ascética particular. Mas isto é algo a ser conversado com o Pai Espiritual.

Existe uma flexibilidade dentro da ortodoxia de modo a tornar o jejum suportável para todos os fiéis respeitando condições pessoais de cada um. Com a orientação do Espírito Santo, o Pai Espiritual avalia cada caso e concede pequenas mudanças de acordo com as necessidades do indivíduo. De todo modo, é de bom tom que o fiel queira verdadeiramente entrar em contato com as energias incriadas. A vontade genuina arranja um jeito de nos adaptarmos às práticas ascéticas para participarmos dessas experiências com Deus. O próprio Deus capacita, como capacitou Daniel. (Dn 10 – bela passagem também)

No vigésimo quarto dia de jejum, Daniel viu um homem com o rosto resplandecente que o capacitou. Mas em Daniel 1, fica claro que o jejum era grande aliado de Daniel, que fora preso por Nabucodonosor e faz um jejum parecido com o jejum ortodoxo por 10 dias. Ao final dos 10 dias, Daniel estava com melhor aparência que os outros presos da mesma idade. E então, Deus lhe deu entendimento em toda a visão e sonhos.

Fica claro, portanto, que hoje com o hábito de empanturrar-se, ainda mais de porcarias tóxicas num festival de hedonismo nunca antes visto em tal proporção na humanidade, a última coisa que vamos conseguir é saúde física, mental e espiritual. Viramos verdadeiros sacos de lixo, totalmente contaminados. De modo que torna-se em vão participar da Divina Liturgia e comungar sem ao menos praticar o ascetismo preconizado pelos Pais da Igreja. Ou ainda, seja qual for a sua religião, praticar o ascetismo preconizado por ela. É no jejum que o Milagre começa a acontecer.

(vai ter continuação)

Mariana Passaglia

 

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